quinta-feira, maio 10, 2007

LEI DO SILÊNCIO

Quando tragédias destas, como do desaparecimento da pequena Madeleine, acontecem em países como Estados Unidos ou Inglaterra, assistimos pela televisão a ‘gabinetes de crise’ montados, colaboração entre as várias autoridades, relação estreita com a comunicação social, conferências de imprensa diárias com a actualização dos desenvolvimentos, difusão a nível nacional dos nºs de telefone para quaisquer denúncias, divulgação pública de retrato-robot do(s) suspeito(s), enfim a informação circula. Aqui em Portugal, parece que tudo se passa ao contrário. Para além da sensação de que cada autoridade actua de forma individualizada, assistimos ainda impávidos a um absurdo absoluto controlo da informação. Nada se diz, nada se divulga, e tudo se justifica com o famigerado “segredo de justiça”. E como os resultados desta estranha forma de actuar tardam em chegar, torna-se quase inevitável não criticar. Só espero que a pequena Madeleine tenha mais sorte que a pequena Joana. Eu é que já não sei se a minha impaciência se deve à ignorância sobre a evolução das investigações ou se ando a ver CSI’s a mais!

3 comentários:

L Parreira disse...
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L Parreira disse...

Não sei como funcionam as coisas nos Estados Unidos, mas pelo que leio nos jornais ingleses concluo que a imprensa inglesa tem a tendência de revelar mais do que seria desejável na condução de investigações criminais.
No caso em questão, vamos supôr que até existia um suspeito. Seria benéfico revelar as fotos desse suspeito, que o poderiam levar a uma situação de pânico, provavelmente ao assassinato da criança, caso ela ainda estivesse viva? Ou deveria a polícia agir com prudência tentando apanhar o criminoso?
Eu sei que é muito típico de alguns portugueses criticarem as nossas instituições, como se fossemos piores do que os outros em tudo. Felizmente isso não é verdade.
Até consigo compreender que alguma imprensa inglesa, precisamente aquela cujo alvo são as classes sociais mais baixas, tente pôr a culpa da não-resolução deste caso na forma de funcionamento da nossa polícia. Custa-me a compreender que os portugueses afinem pelo mesmo diapasão.
Por último, a referència ao caso Joana pode levar a pensar que nesse caso a polícia teve culpa do que lhe sucedeu. Convém lembrar que quando o caso se iniciou, já a criança tinha sido morta e os restos mortais eliminados. Mesmo assim, fruto da "estranha forma de actuar" foi possível identificar os culpados e condená-los em tribunal. Não sei o que há a criticar à actuação policial neste caso.
Quanto ao CSI, não costumo ver a série, mas será que quando eles descobrem provas que poderão ser importantes para a resolução de um caso costumam fazer conferências de imprensa a anunciar os resultados?

verbal disse...

Caro Parreira

Vamos por partes, e começando talvez pelo mais fácil, que é o “caso Joana”. Afirmas que não saber “o que há a criticar à actuação policial neste caso”. Bem vou-te só lembrar que a actuação da PJ de Portimão neste caso é verdadeiramente um “case-study” de como não se deve fazer uma investigação criminal. Senão vejamos:

- passaram-se vários dias antes que os investigadores da PJ chegassem à casa da Joana para recolher provas. Entretanto nesse período de tempo, qualquer indício ou prova existente já tinha sido “contaminado” por jornalistas que de lá faziam “directos” para os telejornais ou pelos habituais “curiosos” que por lá populavam.

- a mãe e o tio foram acusados pela PJ de ter morto a criança, mas pensava eu que para haver uma morte teria de existir um corpo. O corpo da Joana nunca foi encontrado mas isso não invalidou a tese de homicídio da PJ.

- a confissão de culpa da mãe foi arrancada “à pancada”. A fotografia da mulher toda negra apareceu nas primeiras páginas dos jornais. O próprio coordenador da PJ foi constituído arguído por agressão.

Se todos estes factos não consubstanciam uma “estranha forma de actuar”, convenhamos que reflectem “uma forma de actuar estranha”. E o resultado desta “estranha” investigação foi a condenação dos “culpados” com base em provas circunstanciais, entrando assim esta sentença directamente para a “galeria das anedotas da deprimente justiça portuguesa”.

Resta-me acrescentar que tudo isto se passou em Portugal em pleno século XXI.

No “caso Madeleine”, mantêm-se a mesma “estranha forma de actuar” mas desta vez a coberto de um tal “segredo de justiça”. É tudo tão confidencial que o SEF e a Policia Marítima não foram imediatamente informados do desaparecimento da menina. As fotografias da Madeleine só foram disponibilizadas um dia depois. O retrato–robot do suspeito é segredo, o n.º de telefone para qualquer informação é desconhecido. Dez dias depois do desaparecimento e não se sabe o ponto de situação das investigações. Para a cereja no topo do bolo só falta mesmo arrancar “à bofetada” a confissão de algum suspeito inglês para o caso ficar encerrado.

A analogia para com a série CSI é que estes investigadores resolvem qualquer caso numa hora de emissão. Por vezes gostava de viver num mundo assim.