RECIPROCIDADE
Primeiro, tenho uma paixão pelo cinema. Segundo, não tenho qualquer preconceito contra o cinema português. Apenas sou da opinião que o cinema português não presta. Como gosto de dar na medida em que recebo, simplesmente abdico de ver filmes portugueses. Tempos houve em que caí na asneira de perder o meu tempo, mas depois, farto de tão más fitas, aprendi a lição.
Assim, os números revelados hoje pelo Instituto do Cinema Audiovisual e Multimédia (ICAM), onde se refere que durante o ano de 2004, o cinema português ainda atraiu cerca 193.197 espectadores às salas de cinema, surpreenderam-me. Pergunta: tantos espectadores? Críticos, borlistas, por convite ou obviamente enganados, só pode, digo eu.
Até porque pensava que a relação dos portugueses com o ‘seu’ cinema, tivesse ficado bastante afectada com o episódio ocorrido à uns anos atrás, quando o cinema português subsidiado ofereceu aos seus espectadores uma pérola negra cinematográfica, intitulada de ‘Branca de Neve’. Quando confrontado com a indignação das pessoas que tinham pago bilhete para assistir a 75 minutos de ecrã negro, o realizador João César Monteiro (JCM) afirmou: “o público português que se foda!”. A mim, estas palavras não me incomodaram, até porque sempre preferi a versão americana, da Disney.
Mas ironicamente, perante os números agora divulgados, não posso deixar de pensar, como afinal JCM estava cheio de razão: o cinema português não merece o público português. E como o sentimento é recíproco, acrescento eu, o público português também não merece o cinema português!
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1 comentário:
Já é quase tradição eu discordar do que tu escreves. Isso acontece por várias razões, a principal acho que é por teres essa grande qualidade de ser frontal, de evitar o politicamente correcto. Ao expores as tuas opiniões desta forma frontal, é natural que despoletes reacções quer de concordância, quer de discordância. No meu caso, já concluí que estamos em desacordo em quase tudo, e por isso, se não levares a mal vou continuando a discordar do que tu escreves (não ponho de parte a hipótese de manifestar a minha concordância, na improvável hipótese de concordar contigo em algo que escrevas!).
Deixa-me então dizer o que acho do cinema português, acho que é um cinema de autor, e como tal, a sua qualidade depende, naturalmente dos realizadores, e tal como todos os países, temos bons realizadores e outros menos bons. Fugindo aos dois nomes óbvios (Manoel de Oliveira e João César Monteiro), cujo prestígio internacional não é reconhecido internamente (nem depois da morte de JCM foi visto de outra forma, como tantas vezes acontece), destaco por exemplo José Canijo ou António Pedro Vasconcelos, outros há certamente, até porque não vi filmes cujas opiniões que ouvi foram muito favoráveis, por exemplo, Sorte Nula e A Costa dos Murmúrios.
Resumindo, o bom cinema não precisa de grandes meios financeiros, precisa essencialmente da paixão dos que nele intervêm e em Portugal, até pela falta de meios, quase todos os que estão no mundo do cinema, estão de alma e coração.
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